21 de nov de 2015

TINHA QUE SER DO PSDB. KKKKKKKKKKKKKK

Ilana Lemos: Homens como o deputado Rogério Marinho serão sempre os verdadeiros sapos


Rogério Marinho
Sobre príncipes e sapos do século XXI
por Ilana Lemos de Paiva, especial para o Viomundo
No meio de uma das suas aulas de História na Educação de Jovens e Adultos (EJA), numa escola da periferia de Natal (RN), meu companheiro escutou a seguinte indagação de uma de suas alunas:
– Professor, a sua companheira faz o quê?
– Dá aula, trabalha na Universidade…
– Vocês dois passam o dia fora? E como vocês fazem para dar conta da casa?
Retruca do fundo da sala, uma terceira aluna: – Deixa de ser besta, fulana, eles têm “empregada”.
– Não, não, não temos ninguém. Damos conta de tudo sozinhos. Eu mesmo faço minha comida, lavo roupa e tudo mais. – Respondeu ele.
– Ah, é um príncipe encantado! – Suspiraram as alunas.
Eu e meu companheiro sempre dividimos as tarefas domésticas de modo equitativo (na verdade, nem tão equitativamente assim; devido as minhas poucas habilidades domésticas, fico sempre com a menor parte). Nada mais esperado para um relacionamento do século XXI.
Depois de rir um pouco do diálogo passado em sala de aula, logo pensamos na luta daquelas mulheres que ali estavam. Trabalhavam o dia inteiro, assistiam às aulas à noite e ainda tinham que dar uma “terceira jornada” em casa, sendo responsáveis sozinhas por todas as tarefas domésticas, enquanto seus companheiros descansam, vendo o futebolzinho na TV… E essa cena está longe de ser uma caricatura das famílias brasileiras.
Logo veio à lembrança, também, o artigo perturbador (e vexatório) do deputado do estado do RN, Rogério Marinho, uma mescla de ignorância e uma boa pitada de cinismo. No artigo completamente desprovido de conhecimento histórico e filosófico, o deputado afirma: “A intenção marxista por trás das teorias de gênero são explicitadas sem pudor pelas teóricas do feminismo radical desde Simone de Beauvoir. Abolir a própria ideia de feminino e masculino e subverter os comportamentos sexuais transformando-os em armas contra a família dita tradicional opressora”.  E por aí vai…
Certamente, o deputado nunca abriu um livro de Marx, nem de Beauvoir. Como bem disse Edmund Wilson, no seu fantástico “Rumo à Estação Finlândia”, a tendência de boicotar Marx e Engels – tão recrudescida nos dias atuais – constitui uma notável corroboração da teoria marxista sobre a influência da classe sobre a cultura.
Marx e Engels haviam declarado, em contraposição ao idealismo alemão, que todas as ideias eram humanas e estavam ligadas a alguma situação social histórica que, por sua vez, fora produzida pelas relações entre os sujeitos e condições materiais específicas. Ora, a partir da dialética marxista pretende-se estudar a “coisa em si”, que não se manifesta diretamente às pessoas.
Para a compreensão do real, faz-se necessário o que Kosik chamou de détour (desvio). Isso se dá porque, ao conhecer, os sujeitos agem como indivíduos históricos, de forma objetiva e prática, dentro de um determinado conjunto de relações sociais. O sujeito cognoscente não existe fora e apartado do mundo. A realidade passa, então, a ser entendida na ótica marxista como um processo, um todo estruturado, devendo-se buscar as conexões, as categorias que a articulam.
A função das teorias críticas está justamente em retirar os véus que nos impedem de ver a realidade, que é atravessada pelo que Paulo Freire (outro pensador importante e respeitado mundialmente, também acusado de “doutrinador”) chamou de consciência mágica.
Diz-nos Freire: “(…) a toda compreensão de algo, corresponde cedo ou tarde, uma ação. Captado um desafio, compreendido, admitidas as hipóteses de respostas, o homem age. A natureza da ação corresponde à natureza da compreensão. Se a compreensão é crítica ou preponderantemente crítica, a ação também o será. Se é mágica a compreensão, mágica será a ação”. Compreender a realidade criticamente, para agir criticamente, de modo a transformá-la. Se esse não for um importante papel dos educadores e educadoras, não sei o que será…
Foi retirando os véus da naturalização dos processos de opressão às mulheres, que Marx e Engels foram dos primeiros a denunciar a situação degradante que viviam as mulheres operárias do seu tempo, e foram além, afirmando que a verdadeira libertação da mulher é o processo geral de humanização de todo gênero humano.
Simone de Beauvoir, filósofa existencialista (e não marxista) foi de fato uma mulher interessantíssima. Em 1949, lançou o livro “O segundo sexo”, tema de uma das tão faladas questões do Enem. O livro causou enorme rebuliço na vida ocidental da época – afinal era década de 40 -, simplesmente por dizer que a mulher deveria escolher seu destino.
Não, deputado, ninguém nasce mulher, torna-se mulher. “Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade”, disse Beauvoir. O fato de nascer mulher não deve determinar o destino que foi construído histórico e culturalmente para a mulher. Assim o fosse ainda estaríamos na pré-história dos direitos das mulheres, arduamente conquistados pela vanguarda feminista.
Além disso, Beauvoir dizia que não há um jeito único de exercer a feminilidade, temos o direito de escolher como exercê-la. Marx diria apenas, no eterno embate do marxismo com o existencialismo: “Opa! Cuidado, cara Simone! Os homens e mulheres fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
Muitos são os grilhões que amarram ainda inúmeras mulheres à condição de opressões e violências, mas que estão prontos para serem quebrados, a partir da luta coletiva e ação histórica e política.
E aqui estamos de volta a 2015. Homens que dividem tarefas domésticas com as mulheres ainda são vistos como “príncipes encantados” e deputados acusam importantes filósofas (os) e pensadoras(es), patrimônios culturais e intelectuais da humanidade, de “doutrinação ideológica”, e atacam direitos conquistados historicamente.
Eu escolhi como quero ser mulher e exercer minha feminilidade (embora sob as condições históricas materiais e concretas do meu tempo, da minha cultura e da minha classe). Na minha escolha, não cabem príncipes, porque, ao invés de dividir comigo as tarefas domésticas, explorariam outras mulheres e homens para fazerem por eles. Na minha história, cabe um companheiro, humano, com qualidades e defeitos, que escolhi para dividir a vida. E, por fim, na minha história, homens como o deputado Rogério Marinho serão sempre os verdadeiros sapos, que tentam encobrir a dura realidade vivida por milhares de mulheres, e suas lutas e conquistas, por trás do falacioso discurso dos valores tradicionais da família brasileira.
Ilana Lemos de Paiva é professora  curso de Psicologia da UFRN
PS do Viomundo: Rogério Marinho é deputado federal pelo PSDB do Rio Grande do Norte.
VIOMUNDO »

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
 
Voltar para o topo